Por detrás da câmara

Porquê?

A fotografia permite-me cristalizar histórias, para que nunca se percam na substituição do tempo. A fotografia deixa o passado e as camadas da vida, num campo verde, à solta, e é como se, com ternura, nos envolvesse num manto materno de texturas, aromas, paladares, músicas, palavra(s), lugares e esquinas, que conhecemos como ninguém pode conhecer, ninguém… Para isso, seria preciso ter estado lá, naquele sítio, àquela hora, quando o dedo ter-se-á decidido, ou quem sabe, descaído, quando a máquina disparou, e guardou… tudo.A fotografia deixa-nos a rir e não menos vezes a chorar, liberta-nos, faz-nos sentir saudade de algo que não admite take 2, leva-nos a “assentar a poeira” e a aceitar o que a vida tira e põe… Nesse jogo de cadeiras que se ocupam e se esvaziam, insinuando a mesma cadência com que as noites caem, e os dias nascem.Esta é a rua que, todos, descemos, e onde momentaneamente nos paralisamos e prendemos, esquecendo o destino certeiro que os passos metem na cabeça (encucam!); esta é a rua das coisas que nos fazem olhar para trás, rodar a cabeça, parar, pensar, emocionar, apaixonar, e; esta é uma rua em que os cruzamentos não se evitam, por isso, ninguém atravessa para o passeio do lado de lá; esta é a rua onde eu vivo, mas onde, não sei porquê, também vocês, teimam em passar, desde que me conheço pelo nome; esta é a rua dos vossos caixilhos.

E, a fotografia é o meu acto de amor……

Porque me perco só de olhar.

 

DSC_4028

Curioso é que nós passamos 40 ou 50 anos de uma vida a fazer determinadas coisas e um dia mais ou menos de repente, sem que renunciemos a nada do que fizemos, apercebemo-nos de que tudo deveria ter sido diferente.

                                                                                                                                                         Por Zeca Afonso

Deixe uma resposta